quinta-feira, 23 de setembro de 2010

VILA CHÃO

Eduardo Lopes da Silva comentou em: 21/01/2009 20:25

Vila Chão, não é uma história, pois nunca foi contada.
Brotou e não se sabe onde, só pode ter sido lá...perdida no sertão; em algum lugar, que ninguém viu.
Fui procurar Vila Chão. Foram muitas léguas de andança e perguntação, muito chão pisado, campos, capoeiras, grotas e cerrados vencidos. Muitas matas queimadas e outras ainda esquecidas.
Cheguei a um lugar onde encontrei um velho sentado sob uma árvore. Nem parecia perdido como eu. Estava lá, sentado em uma pedra, pensando.
Perguntei por Vila Chão.
- Porque procura se ninguém viu?
- Porque acho que existe, que é meu lugar no mundo.
- O que você procura deve ser só ilusão, do que sempre ouvi falar por estas bandas.
- Maravilha! O que ouviu?
- Que existiu e não existe mais. Que foi destruída num turbilhão de maldade, que veio de lá, da civilização.
- Como foi isto? Quero saber.
Olhou-me fixo e demoradamente. Eu queria saber de Vila Chão e ele queria saber se eu merecia.
Eu já estava sentado noutra pedra, defronte, tão quieto que me identifiquei com ela. Segurei aquele seu olhar enquanto pude, profundo, penetrante, pensativo.
Deu para perceber que marejava. Também achei que na demora, segurava a emoção.
Com voz embargada insisti: - Preciso saber.
Mais um tempo...eterno, como toda esperança.
- Te conto, mas fica aqui entre nós, não conta pra mais ninguém.
- Porque não posso?
- Não conta que chegou tão perto. Se é o teu lugar, não deixa ninguém chegar. Pois o lugar da gente é a vida de gente, só da gente. Era só meu, agora será também o teu.
Aspirou fundo o ar da mata que nos envolvia. Começou a relatar o que sabia.

- Vila Chão, ah Vila Chão, suspirou.
- Nasceu como tudo que brota, veio do solo que nos alimenta e que um dia nos quer de volta. Está vendo esta terra, vê como é da cor das plantas? Este verde escuro e de outros tons? Foi com ele que a gente do lugar fez suas casas. O vilarejo era verde, sumido no meio do mato...da mesma cor.
- Ah, por isto então ninguém via?
- Ninguém via e se alguém a procurava não achava.
- Uma camuflagem!
- Isto mesmo, camuflada. Seria melhor se nunca fosse encontrada. Mas alguém achou e aí veio toda a desgraça. Certas coisas boas desta vida não devem mesmo aparecer, melhor que fiquem escondidas. O mundo é mau.
- É mesmo, o mundo é mau. Mas como foi que aconteceu?
- Um dia veio um gringo, sei lá de onde. Procurava aventura, coisas diferentes. Andava cansado das coisas de lá. Falava esquisito, do jeito dele, mas parecia bom no jeito e no coração. A gente pôs fé nele.
- O que fez de mau?
- Talvez nada não senhor. É que a gente do lugar fazia arte com o barro verde do lugar: objetos, coisas e figuras. Coisas de usar e coisas de enfeitar. Ele gostou e comprou algumas peças.
- Nada de mal nisto...
- Nada não. Parece que não. Mas levou e sumiu. Passados muitos anos, uns dez, acho, vieram outros. Diziam que toda a gente de Vila Chão teria que sair pois o lugar não era mais nosso. Desapropriação, diziam.
- Como assim?
Mostraram documentos, papeis do governo, tudo passado por cartório. A vida não era mais a mesma. O sofrimento foi grande homem de Deus.
- Porque isto?
- Viemos a saber: nosso barro, nossa vida, valia mais, muito mais. Era muito especial, única jazida no mundo. Servia para muitas outras coisas que a gente nem sabia o que. Iam montar uma grande usina.
- Fizeram?
- Fizeram nada. Tentamos evitar...foi guerra feia. Eu era menino, escapei porque me cobri de barro e cai no mato. Misturei as cores e desapareci. Ninguém mais...
- E eles?
- Sobrou ninguém.
- Não vieram outros?
- Acho que desistiram? Este lugar caiu no esquecimento. Ninguém mais veio, só você agora.
- Entendi.
Agradeci e me despedi dele.

Onde fica Vila Chão? Não posso contar, prometi.
Seria meu lugar e eu nem sei se existe de fato. A vida que queremos nem sempre é real. Pode até ser virtual...mas é a vida que vivemos.
Como toda arte: vivenciamos!


Eduardo Lopes

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